
‘DONA BEJA’, DA HISTÓRIA À FICÇÃO: 7 LIVROS COM PROTAGONISTAS FEMININAS FORTES E TRANSGRESSORAS
Com a estreia da novela na HBO Max, seleção traz obras que revisitam trajetórias femininas marcadas por desejo, poder, transgressão e independência
A nova novela da HBO Max, Dona Beja, estreou nesta segunda-feira, 2, no streaming, com Grazi Massafera no papel principal. Inspirada em uma das figuras femininas mais controversas da história brasileira, a produção revisita a trajetória de Ana Jacinta de São José, conhecida como Dona Beja.
Na trama, Ana Jacinta é uma jovem órfã e noiva de Antônio Sampaio (David Junior). Ao chamar a atenção em um baile na cidade, desperta o interesse do Ouvidor Motta (Virgílio Castelo), que comete um crime para raptá-la. Mantida prisioneira, Beja se recusa a se relacionar com o ouvidor. Uma série de infortúnios acaba por separá-la definitivamente de Antônio, e, ao longo do tempo, Ana Jacinta constrói sua própria fortuna, tornando-se uma mulher independente e uma cortesã de grande influência.
A história de Dona Beja já era conhecida do público brasileiro desde a exibição da novela homônima na TV Manchete, em 1986, protagonizada por Maitê Proença. O que muita gente não sabe é que tanto a produção clássica quanto a nova adaptação da HBO Max tem como base dois livros dedicados à figura histórica de Ana Jacinta: Dona Beja: A Feiticeira de Araxá (1957), de Thomas Othon Leonardos, e A Vida em Flor de Dona Beja (1966), de Agripa Vasconcelos.
A partir desse universo, reunimos outras obras literárias protagonizadas por mulheres fortes, inteligentes e transgressoras. Personagens que, cada uma à sua maneira, desafiaram as normas de seu tempo e dialogam, de diferentes maneiras, com a personagem de Dona Beja.

‘Anna Kariênina’, de Liev Tolstói
A obra narra, por um lado, o drama da bela e impetuosa Anna Kariênina, que, infeliz no casamento, enfrenta o julgamento cruel da alta sociedade de Moscou ao assumir sua paixão pelo conde Vrônski. Por outro lado, acompanhamos o proprietário de terras Lióvin ― alter ego do autor ― em sua busca pelo ideal de uma vida feliz no campo ao lado da jovem Kitty, bem como seus dilemas intelectuais em torno da fé e da justiça social. Anna escolhe amar fora do casamento e se torna alvo de exclusão social brutal. Em comum com Dona Beja, ambas são mulheres que fazem escolhas afetivas próprias e são transformadas em símbolos do “erro” feminino pela sociedade.
‘Madame Bovary’, de Gustave Flaubert
Publicado pela primeira vez em 1856, ainda é uma história atual sobre desilusão, infidelidade e a busca da felicidade. A história faz um ataque à burguesia, desmoralizando-a com a descrição exuberante de sua banalidade. Em um tempo em que as mulheres eram submissas, Emma Bovary encontra nos tolos romances dos livros o antídoto para o tédio conjugal e inaugura uma galeria de famosas esposas adúlteras atormentadas na literatura. Como Dona Beja, Emma encarna o desejo feminino como ameaça à ordem moral e sofre uma punição exemplar por ousar querer mais.
‘Lucíola’, de José de Alencar
Paulo, recém-chegado de Olinda ao Rio de Janeiro, padece de uma paixão por Lúcia. O rapaz sofre com sentimentos conflituosos e com um profundo dilema moral ao descobrir que a digna moça, na verdade, é uma cortesã. Independente e corajosa, Lúcia enfrenta uma sociedade preconceituosa e tenta, a todo custo, reescrever sua própria história. Assim como Beja, ela é julgada menos por quem é e mais pelo que representa: o medo social da mulher que foge às normas sexuais.
‘Senhora’, de José de Alencar
A narrativa de Senhora, dividida em quatro partes, conta a história do casamento entre Aurélia, moça pobre e órfã que acaba se tornando herdeira de grande fortuna, e Fernando Seixas, frequentador dos altos círculos da corte, mas incapaz de manter financeiramente sua vida luxuosa. Senhora retrata um momento de transformação da sociedade brasileira, em que os valores patriarcais são cada vez mais deixados de lado em detrimento do poderio financeiro da burguesia ascendente. Assim, Aurélia usa o dinheiro e o casamento como instrumentos de poder num Brasil patriarcal. Em comum com Dona Beja, ela desafia o lugar passivo reservado às mulheres e exercem controle sobre homens e estruturas sociais.
‘Circe’, de Madeline Miller
Uma história menos óbvia, mas ainda assim com conexões com Dona Beja, Circe reconta o mito de uma mulher demonizada por exercer poder e autonomia. A obra é uma releitura atual da trajetória de Circe, a poderosa – e incompreendida – feiticeira da Odisseia de Homero. É uma garotinha estranha: não parece ter herdado uma fração sequer do enorme poder de seu pai, muito menos da beleza estonteante de sua mãe, a ninfa Perseis. Deslocada entre deuses e seus pares, os titãs, Circe procura companhia no mundo dos homens, onde enfim descobre possuir o poder da feitiçaria, sendo capaz de transformar seus rivais em monstros e de aterrorizar os próprios deuses. Sentindo-se ameaçado, Zeus decide bani-la a uma ilha deserta, onde Circe aprimora suas habilidades de bruxa, domando perigosas feras e cruzando caminho com as mais famosas figuras de toda a mitologia grega.
‘Americanah’, de Chimamanda Ngozi Adichie
Também em uma comparação nem tão óbvia, em Americanah Ifemelu constrói sua identidade longe das normas impostas, questionando gênero, poder e pertencimento. Assim como Dona Beja (que também aborda temas como racismo, homofobia, transfobia e gordofobia), ela se recusa a performar o papel que esperam dela e paga o preço de ser uma mulher que pensa e decide por si. Na trama, enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, ela se muda para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra.
‘A vida invisível de Eurídice Gusmão’, de Martha Batalha
Se Eurídice Gusmão representa a mulher que desaparece para caber no mundo, Dona Beja encarna aquela que se torna escândalo por se recusar a desaparecer. Na obra, Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas. A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX e criadas apenas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida.
Fonte: Estadão/Talita Facchini em 03/02/2026