
EXPEDIÇÕES MARÍTIMAS DA UFRGS AJUDAM A ENTENDER RELAÇÃO ENTRE POLUIÇÃO NA ÁGUA E MUDANÇA CLIMÁTICA NO RS
Iniciativa faz análises da costa gaúcha e quer auxiliar prefeituras na tomada de decisões
Um projeto liderado pela UFRGS quer ajudar na prevenção de desastres climáticos no Rio Grande do Sul. A iniciativa, chamada de Serviço Integrado de Proteção à Linha de Costa do RS (Pró-Costa RS), conta ainda com a participação de outras 10 entidades e universidades.
Inicialmente, está em desenvolvimento um sistema de monitoramento ambiental da costa. O foco é no Litoral Norte e, neste primeiro momento, os trabalhos são feitos em Imbé e Tramandaí.
— São várias frentes que se integram para criarmos uma base de dados que vai fornecer um suporte científico e operacional para os municípios costeiros, pensando nesse enfrentamento das mudanças climáticas — resume a geóloga Maria Luiza Rosa, coordenadora geral do Pró-Costa RS.
Ela ressalta o objetivo de não deixar o conhecimento restrito ao meio acadêmico, mas levar as informações para a comunidade e as prefeituras.
Uma expedição na água
Na prática, parte dos integrantes do Pró-Costa RS fica de olho na água. Zero Hora esteve na oitava viagem mensal de coleta de materiais na saída da barra do Rio Tramandaí e no mar, que ocorreu na última quinta-feira (12). São recolhidos água, sedimentos e organismos.
O barco, com dois pesquisadores e quatro alunas de Biologia Marinha, saiu do píer próximo às 8h e retornou perto das 14h. A embarcação foi parando em 10 pontos previamente definidos.
— Trabalhamos com a qualidade de água, então estamos vendo os contaminantes. Esses contaminantes são metais pesados, agroquímicos, porque temos a Bacia do Rio Tramandaí trazendo esses elementos da parte mais alta. Vemos fármacos também. E encontramos cafeína na água, isso também é um indicativo de poluição de origem humana — explica a pesquisadora Juliana de Freitas Gonçalves, 37 anos, da área de Oceanografia.
Juliana conta que esses elementos costumam chegar à água por meio do esgoto, seja na urina ou pelo próprio descarte incorreto de remédios dentro do vaso, por exemplo. Neste contexto, a equipe também analisa os nutrientes:
— É para ver a mudança (dos nutrientes) e tentar relacionar com eventos extremos do clima. Quando chove mais, traz mais elementos para cá, e aí tentamos fazer essa correlação.
Enquanto isso, outro grupo tenta recolher sedimentos. Um instrumento é jogado na água e, ao encostar no solo, se fecha, coletando material. Depois, no laboratório, devem ser analisados os organismos presentes ali.
Com outros materiais, são coletados fito e zooplânctons, organismos extremamente pequenos. Eles são "pescados" com uma rede jogada à água.
— Se eu tenho menos presença ou mais presença (de organismos), pode estar revelando alguma coisa dessa cadeia — esclarece a estudante Júlia Peixoto, 24 anos.
As referências são estudos anteriores e também dados já coletados pela equipe desde 2025. Responsável pela área de biodiversidade do Pró-Costa RS, o pesquisador Octavio Esquivel Garrote ressalta:
— É difícil, em um período de um ano, ter a segurança de que são as mudanças climáticas que estão influenciando na composição do zooplâncton, dos bentos e do fitoplâncton. Mas podemos inferir que os eventos extremos, que estão acontecendo com mais frequência, estão influenciando na composição desses organismos, que são muito importantes para toda a cadeia.
Previsão do tempo e recuperação de dunas
Uma outra atividade realizada por integrantes do projeto é a criação de um sistema de previsão do tempo que leva em conta dados da atmosfera e do oceano.
— Temos conseguido ter uma previsão muito superior às que existem atualmente — pontua a coordenadora geral, Maria Luiza Rosa.
Aos poucos, a ideia é que o processo evolua para um sistema de alerta de eventos mais extremos e refino de avisos para localidades ou bairros específicos, acrescenta a pesquisadora.
Junto a isso, parte da equipe faz uma análise da costa gaúcha comparando passado e presente. A ideia é saber em quais áreas o mar tem avançado sobre o continente e em quais acontece o contrário. Como explica a coordenadora geral, isso permitirá entender quais são as regiões mais sensíveis à erosão e inundação.
Maria Luiza destaca ainda o papel das dunas em funcionar como "comportas que protegem o Litoral". Em alguns pontos, os pesquisadores têm tentado recuperar essas formações pela ação do vento ou da água.

Futuro incerto
Tempo e dinheiro são os limitantes do Pró-Costa RS. Segundo a coordenadora geral, o projeto é mantido com verba de um edital que termina no fim de 2026.
— Temos tentado qualquer oportunidade de mandar propostas para que ele tenha uma continuidade, porque, esses monitoramentos que estamos fazendo vão durar um ano. Vamos poder dar respostas, mas e depois? Como é que vai ser a água? O que está acontecendo? — reforça Maria Luiza.
A equipe completa é formada por pesquisadores e estudantes de áreas como Meteorologia, Oceanografia, Geologia, Biologia, Biologia Marinha. A base da iniciativa fica no Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), da UFRGS.
Fonte: Zero Hora/Isadora Garcia em 16/02/2026