
‘DATING BURNOUT’, EGO INFLADO E IA: OS NOVOS DESAFIOS DE BUSCAR O AMOR EM APPS E REDES SOCIAIS
A tecnologia acrescenta novas nuances - e desgastes - à procura por pretendentes
Deslizar perfis, iniciar conversas e investir horas em interações que nem sempre saem da tela: essa é uma realidade de quem usa apps de relacionamento. No Brasil, quatro em cada dez adultos estão nessa dinâmica, segundo uma pesquisa da Norton. O mesmo levantamento aponta que as pessoas passam até nove horas por semana nessas plataformas, na busca por um par.
Mas o impacto da tecnologia nos relacionamentos vai muito além do match. A velocidade das trocas, o acesso a muitas opções de contatos e a facilidade de conexão mudaram a forma como a intimidade se constrói, dizem os especialistas. Além disso, afetam a maneira como expectativas, frustrações e vínculos se formam.
Entre os prós e contras, especialistas em psicologia e neurociência observam que o digital não só amplia as possibilidades, mas impõe desafios diferentes.
‘Dating burnout’ e ego inflado
No cenário atual, com apps e sites de relacionamento, o dinamismo impera. “Você fala com tantas pessoas ao mesmo tempo que a coisa parece ser um pouco mais descartável. Às vezes, é mais difícil aprofundar essas relações”, avalia Maria Amélia Penido, doutora em psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coautora do livro Relacionamentos Amorosos na Era Digital.
Outro aspecto é o que a especialista define como um movimento de novas formas de se relacionar, uma espécie de crise da monogamia. “As gerações mais novas trazem outras possibilidades, falam em comprometimento afetivo e não necessariamente monogamia.”
Adriana Nunan, doutora em psicologia pela PUC-Rio e também coautora da obra, destaca que relações não convencionais já existiam, embora sem aceitação social. A mudança está justamente na velocidade dessas dinâmicas. “Antigamente, você tinha que ligar para a pessoa, marcar um encontro. Hoje, não. Você manda uma mensagem, pode ficar falando o dia inteiro e se cria às vezes uma intimidade que, em outra época, não viria com tanta rapidez”, diz.
Porém essa agilidade cobra seu preço. A pessoa pode ter a sensação de que o relacionamento é muito mais significativo do que é na verdade, porque muitas vezes está fantasiando, segundo Adriana.
Além disso, há a estafa que essa dinâmica pode causar, o chamado "dating burnout". As pessoas estão cansadas de encontros que “não dão em nada” e de verem sempre “as mesmas carinhas” rodando no aplicativo, diz Adriana.
A recepcionista hospitalar Patrícia Gomes, de 41 anos, viveu esse processo de desgaste na tentativa de achar alguém interessante para conversar após ficar solteira. Dois aplicativos de relacionamento e três redes sociais depois, ela decidiu jogar a toalha. “Os aplicativos e grupos estão cheios de gente, mas até para iniciar uma conversa hoje é difícil”, desabafa.
Há ainda outra camada, de acordo com uma pesquisa recente do happn com usuários da plataforma: mais de 50% dos solteiros afirmam usar apps de relacionamento apenas como um meio de inflar seus egos.
Como resposta a esse cenário que nem sempre favorece o amor, Adriana diz que as pessoas estão procurando outras formas de conhecer possíveis parceiros. “Por exemplo, aplicativos em que as pessoas se reúnem em torno de um hobby, de um objetivo, como a corrida”, exemplifica. Essa seria uma maneira mais fácil de entrar em contato com indivíduos com gostos semelhantes.
Em busca da paixão ou do amor?
Adriana diz que é natural do ser humano buscar amor e pertencimento. Mas como a dinâmica do amor, de fato, acontece no cérebro?
O neurocientista Fernando Gomes, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Tratado sobre o amor (Editora Planeta), explica: “Quando nos apaixonamos, ocorrem várias mudanças na química do nosso cérebro, destacando-se a liberação de neurotransmissores como dopamina, ocitocina e serotonina”.
É a interação desses neurotransmissores com circuitos neurais específicos — como o sistema límbico, envolvido nas emoções e na memória, e o córtex pré-frontal, relacionado à racionalidade e à tomada de decisões — que compõe o que conhecemos como amor.
O fenômeno é diferente da paixão, com a qual aqueles que usam aplicativos e redes sociais em busca de parceiros podem acabar se deparando.
A paixão, diz Gomes, é mais intensa e efêmera, além de ser caracterizada por uma atração física e emocional avassaladora.
O neurocientista aponta o papel de cada neurotransmissor nessa química do romance:
Para Gomes, embora a tecnologia facilite a formação de vínculos, a habilidade de cultivar relacionamentos significativos pode ser afetada, o que torna difícil para as pessoas experimentarem o amor de forma plena.
“É importante encontrar um equilíbrio saudável entre a interação digital e a comunicação face a face”, orienta o neurocientista.
Maria Amélia também reforça a questão do (des)equilíbrio entre o contato online e offline: “Algumas pesquisas mostram que as gerações mais novas, que já nasceram nesse meio, estão fazendo menos sexo e tendendo a ficar mais isoladas e perdendo soft skills de tanto que as interações estão ficando remotas."
Desafios
À discrepância entre o contato virtual e as conversas presenciais nas relações nascidas no virtual somam-se outros desafios, afirmam os especialistas:
– Um “eu” online e outro na vida real
Esse desafio surge quando, no mundo virtual, a pessoa cria uma identidade muito diferente da verdadeira. “É como se tivesse duas vidas”, diz Maria Amélia, apontando que tal distanciamento de versões pode estar associado ao desenvolvimento de psicopatologias.
Quando estava em busca de um novo amor, a psicóloga Beatriz Brito, de 35 anos, conta que escolheu usar o Adote um Cara, plataforma que tem filtros de interesse e deixa com as mulheres a decisão de iniciar a conversa. Por lá, em 2018, conheceu o atual marido.
Logo no início, eles decidiram trocar fotos não posadas. Depois disso, decidiram pelo encontro presencial, onde o entrosamento fluiu mais do que pelas conversas via WhatsApp.
– Inteligência artificial
Há casos em que a inteligência artificial é um “cupido” – como na história deste casal – e outros em que a tecnologia é usada justamente para turbinar ou falsear a personalidade apresentada no ambiente online.
“Nos grupos de namoro do TikTok, a maioria dos perfis é criada por inteligência artificial”, opina Patrícia.
Além disso, há IAs assumindo papéis de conselheiras. “Por exemplo: ‘Falei com fulano na rede, como respondo agora a tal mensagem?’”, exemplifica Maria Amélia.
O resultado é a perda de autonomia. “O risco é perder a sua espontaneidade e autenticidade, tão importantes para conhecer uma outra pessoa.”
– Tentativas de golpes
A pesquisa de cibersegurança da Norton que aponta que quatro em cada dez adultos brasileiros (37%) usa apps de namoro traz um dado preocupante: 21% dos indivíduos desse grupo já foram alvo de golpes virtuais.
“Já tive conversas com uma pessoa que sempre dava um jeito de sondar minha vida financeira com perguntas soltas e queria me encontrar pessoalmente”, conta Patrícia, que declinou das investidas por temer por sua segurança.
Para evitar cair em golpes, Maria Amélia recomenda verificar se há pessoas em comum, que ambos conheçam, que poderiam confirmar como é a vida real desse novo contato. Além disso, é importante marcar os primeiros encontros em locais públicos e movimentados.
– Distância
A tradutora Larissa Silva, de 31 anos, conheceu o atual companheiro em 2021, pelo Facebook Date. Ele morava no Rio Grande do Sul quando se conheceram e, hoje, os dois vivem juntos em Campinas (SP). Como no caso dela, os apps podem facilitar conexões entre pessoas distantes, mas Maria Amélia defende que, em algum momento, o relacionamento precisa migrar para o mundo real — e isso pode gerar um desgaste.
Adriana acrescenta que relacionamentos a distância podem funcionar desde que haja um plano para os dois se encontrarem, regularidade nos encontros e um plano para ficarem juntos.
Ela também pontua que esse cenário pode exigir uma comunicação mais alinhada entre o casal, para sustentar a confiança. Além disso, o cuidado precisa ser redobrado em relação às expectativas. “Você projeta muitas coisas naquela pessoa e você acaba sem referência alguma”, enfatiza.
Quando Larissa conheceu o atual marido, ela buscava novas amizades e alguém para conversar em pleno isolamento da pandemia de covid-19, e o foco foi escolher uma plataforma que tivesse esse estilo.
“Eu tinha muito preconceito com aplicativos de relacionamento, pois achava que só tinha gente complicada ou buscando apenas diversão”, conta. Eles foram da conversa por texto à ligação de voz e, depois, às videochamadas. A comunicação constante ajudou o par a não ter idealizações.
– Novas maneiras de ver a traição
A traição também pode ganhar novos contornos no digital. “Há pesquisas recentes com pessoas que acham que ter um relacionamento com a IA é traição”, exemplifica Adriana.
Segundo as especialistas, a traição não precisa ser necessariamente física, mas uma quebra do combinado entre o casal. “Curtir (a foto de) uma pessoa é uma traição? Conversar com alguém online, virtualmente, é uma traição? Se a relação é só virtual, isso é considerado uma traição?”, questiona Maria Amélia.
A orientação dela é manter o diálogo franco sobre como cada um entende o assunto. “Assim é possível definir quais são os parâmetros do relacionamento.”
Fonte: Estadão/Andressa Lima em 13/01/2026