
O QUE É NOLT? VEJA O SIGNIFICADO E POR QUE ESTÁ EM ALTA NAS REDES SOCIAIS
Movimento nas redes sociais questiona estereótipos sobre envelhecimento e propõe nova forma de viver depois dos 60; entenda tudo sobre o termo viral
A sigla NOLT (New Older Living Trend) tem dominado as redes sociais e representa pessoas que recusam os rótulos tradicionais do envelhecimento. Em vez de aceitar expressões como "terceira idade" ou "melhor idade", defendem o direito de continuar ativos, visíveis e protagonistas de suas próprias vidas.
O fenômeno reflete uma transformação cultural mais profunda: pessoas com 60 anos ou mais que disputam espaço na sociedade, não negam a passagem do tempo, mas também não aceitam ser empurradas para o recato social prematuramente. A seguir entenda mais sobre o termo e a "nova" forma de pensar o envelhecimento, além de ver uma análise de Luiz Mafle, psicólogo, professor de Psicologia e Doutor em Psicologia pela PUC Minas e Universidade de Genebra.
Quem são os NOLT?
De acordo com as discussões que circulam nas redes, os NOLT são pessoas que recusam os estereótipos tradicionais associados ao envelhecimento. Não se trata de negar a passagem do tempo, mas sim de disputar espaço na sociedade e continuar ativos intelectual, social e profissionalmente. O termo surge como resposta a expressões antigas como "terceira idade" e "melhor idade" — rótulos que muitos consideram limitantes e carregados de eufemismos desconfortáveis.
O termo ressoa especialmente entre pessoas que se sentem pressionadas pelos padrões etários da sociedade. Nas redes sociais, a hashtag e discussões relacionadas ao NOLT têm atraído tanto pessoas mais velhas quanto jovens que refletem sobre como querem envelhecer. O movimento também critica o discurso publicitário que tenta vender "vitalidade performática" a todo custo, propondo em vez disso uma abordagem mais autêntica e realista sobre o envelhecimento.
As características do movimento NOLT
Para além da viralização nas redes sociais, ao analisar o fenômeno, é possível perceber que os NOLT se destacam pela recusa ao recato social. Pessoas com 60 anos ou mais que não aceitam ser empurradas para fora da vida pública e social prematuramente. Além disso, há uma forte lucidez sobre o tempo, já que, diferente de tentar simular juventude eterna, o traço distintivo é a consciência do limite, combinada com a coragem de continuar escolhendo ativamente seus caminhos.
No movimento, não se relata uma vontade de "recomeçar a vida", mas de dar continuidade aos projetos, aprendizados e relacionamentos, sem aceitar rótulos de "produto perecível". Tudo isso em torno do conceito de que envelhecer não é "melhor" nem "pior" que outras fases da vida — é apenas complexo como outras fases da vida.
O contexto brasileiro e global
O fenômeno NOLT, portanto, reflete uma transformação demográfica e cultural mais ampla. As pessoas vivem mais, aprendem e mudam de carreira depois dos 50 anos, mas ainda enfrentam pressões sociais para "desaparecer" da vida pública cedo demais. A discussão sobre NOLT se intensifica em um momento em que o Brasil e o mundo enfrentam um envelhecimento populacional acelerado. No Brasil, projeções do IBGE indicam que um em cada quatro brasileiros será idoso em 2060, passando dos atuais 9,2% para 25,5% da população.
O que a psicologia diz sobre isso
Segundo Luiz Mafle, psicólogo, professor de Psicologia e Doutor em Psicologia pela PUC Minas e Universidade de Genebra, a terminologia NOLT não é exatamente uma teoria robusta do envelhecimento, mas uma categorização informacional que facilita o entendimento do tema.
Mafle explica que o termo divide o envelhecimento em categorias. Primeiro, o envelhecimento normal, que é o esperado do ponto de vista biológico e psicológico, com declínios graduais em algumas funções como memória de trabalho e força física, mas com preservação da autonomia e do funcionamento adaptativo.
Depois, há o envelhecimento ótimo, com alta qualidade de vida e manutenção de engajamento social. É aquela pessoa mais ativa, que encontrou sentido nas vivências do dia a dia, consegue participar de grupos sociais, tem flexibilidade psicológica e se mantém aprendendo, com bom funcionamento cognitivo e emocional. "Esse tipo de envelhecimento costuma ser associado a fatores preventivos, como vínculos, propósito de vida, hábitos saudáveis e recursos simbólicos", afirma.
O terceiro é o envelhecimento limitado, já marcado por perdas mais significativas, com doenças crônicas, restrições funcionais no dia a dia e isolamento social, o que traz impacto psicológico relevante e exige maior suporte ambiental e relacional.
E há o envelhecimento terminal, fase em que o foco deixa de ser desenvolvimento ou desempenho e passa a ser cuidado, elaboração emocional, fechamento de ciclos e luto antecipatório, no sentido da finitude.
A heterogeneidade do envelhecimento
Para o psicólogo, apesar de não ser um referencial teórico científico forte, o conceito traz temas importantes da psicologia. O primeiro é a heterogeneidade do envelhecimento — as pessoas envelhecem de formas muito diferentes, dependendo de fatores biológicos, de como cuidaram da própria saúde, mas também de fatores genéticos.
"As pessoas acham que só cuidar da saúde vai prevenir todo o adoecimento. E não é bem assim. Existem fatores genéticos que trazem propensões para doenças, maior fragilidade ou maior resistência em alguns pontos", explica Mafle.
Há também as questões psicológicas. A pessoa fez tratamento psicológico ao longo da vida? Conseguiu lidar com os baques que a vida trouxe? Fatores ambientais também contam: onde cresceu, como era a família, os impactos que a vida trouxe. "Uma pessoa que teve uma vida mais tranquila é diferente de alguém que viveu situações de guerra, extrema pobreza. Obviamente, o desenvolvimento psicológico vai ser diferente", pontua.
Ajustamento psicológico às perdas
Outro ponto importante é o ajustamento psicológico às perdas. Perdas acontecem a vida inteira, então a questão é como cada pessoa simboliza esse declínio: perdas de pessoas, de emprego, de capacidade funcional de trabalho, mudanças do corpo, do papel social.
Há também a questão do sentido, identidade e continuidade da personalidade. Mesmo com as perdas, o sujeito pode manter um sentido de personalidade, de narrativa e de sentido existencial. "Tem gente que se aposenta e pensa: 'Nossa, minha vida perdeu o sentido'. Ou perde um companheiro, um parente, e sente que a vida não faz mais sentido sem essa pessoa. E tem quem não. Mesmo com a aposentadoria ou a perda de uma relação, a pessoa continua íntegra, com o psicológico em dia", exemplifica Mafle.
Por último, está a regulação emocional e adaptação. O envelhecimento bem-sucedido não é ausência de perdas, mas a capacidade de reorganização subjetiva diante das perdas que, invariavelmente, vão ocorrer. "Quando a gente pensa em envelhecimento, a gente pensa em perda. Então, é importante entender que cada um vai lidar com esse processo, nesses quatro níveis, de uma maneira diferente", conclui o psicólogo.
Fonte: TechTudo/Cecile Mendonça em 14/01/2026