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Já ouviu falar em "inflammaging"?
Já ouviu falar em "inflammaging"?

JÁ OUVIU FALAR EM "INFLAMMAGING"? ENTENDA A INFLAMAÇÃO SILENCIOSA QUE ESTÁ ASSOCIADA A DOENÇAS E AO ENVELHECIMENTO 

Processo pode se intensificar com o passar dos anos e é fator de risco para condições como diabetes e hipertensão

 

Duas pessoas de 60 anos podem ter idades biológicas distintas. Enquanto uma esbanja disposição e autonomia nas tarefas do dia a dia, a outra enfrenta cansaço, perda da força muscular e dificuldades de locomoção. A explicação para essa disparidade não está necessariamente na genética ou em alguma doença: muitas vezes, pode estar em um fenômeno silencioso conhecido como inflammaging.

 

O termo resulta da fusão de inflammation (inflamação) e aging (envelhecimento), traduzido na ciência como "envelhecimento inflamatório". O conceito foi criado no início dos anos 2000 pelo pesquisador italiano Claudio Franceschi para definir um estado de inflamação crônica que atua no organismo ao longo das décadas.

 

Diferentemente da inflamação aguda — a resposta rápida e visível do sistema imunológico diante de uma infecção viral ou machucado —, o inflammaging não provoca sintomas como febre, inchaço ou dor imediata. 

 

Conforme o geriatra Virgílio Olsen, chefe do Serviço de Geriatria da Santa Casa de Porto Alegre, o conceito define uma espécie de "ruído" inflamatório associado ao envelhecimento e ao estilo de vida, que desgasta células e tecidos pouco a pouco:

— O inflammaging não se mostra aparente a princípio, é uma condição silenciosa, mas pode acelerar o próprio envelhecimento. É por essa razão que duas pessoas de 60 anos podem ter aspectos biológicos e condições de saúde completamente diferentes, além de, fisicamente, uma aparentar ter 40 e a outra 80 — diz.

 

Como o inflammaging se desenvolve?

O funcionamento do inflammaging não é completamente conhecido pela ciência, mas o processo é descrito como uma consequência natural do envelhecimento. Isso porque, com o avanço da idade, parte das células do corpo entra em estado de senescência — envelhecem, param de se dividir e passam a liberar mais moléculas inflamatórias no organismo. 

 

Entretanto, a intensidade com a qual esse processo se dará em cada pessoa e como seus efeitos serão sentidos ainda não está esclarecido por completo. 

— O envelhecimento ocorre de forma heterogênea entre diferentes pessoas e também entre os sistemas de um mesmo indivíduo. Por exemplo, enquanto a pele de uma pessoa pode envelhecer mais rapidamente, em outra o sistema cardiovascular pode sofrer o maior impacto. Embora o inflammaging seja um processo sistêmico, suas manifestações clínicas variam conforme a vulnerabilidade orgânica de cada um — explica Olsen. 

 

Conforme o médico, é sabido que o estilo de vida também tem influência sobre o inflammaging. Esse processo é intensificado pela soma de maus hábitos acumulados ao longo dos anos, como dieta rica em ultraprocessados, sedentarismo e tabagismo. 

 

Outro fator determinante é o peso. Tanto a obesidade quanto a magreza extrema colocam o organismo em um estado de maior estresse, acelerando a liberação de substâncias inflamatórias. Já praticar exercícios físicos e manter um bom índice de massa muscular ajuda a equilibrar a inflamação crônica corporal. 

 

Quais são os sintomas? 

Mas, afinal, o que o inflammaging causa? Quando não combatida, a condição torna-se um fator de risco para doenças associadas à longevidade, como diabetes, hipertensão, complicações cardíacas, osteoporose e demências. 

 

Isso não significa, porém, que a inflamação levará necessariamente ao desenvolvimento dessas enfermidades. Há um aumento das chances, mas não é possível falar em uma relação de causa e efeito, como alerta a endocrinologista Letícia Weinert, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia no Rio Grande do Sul (SBEM-RS). 

— Na medicina, a análise nunca depende de um único fator. O avanço da idade é, por si só, um marcador de risco para o surgimento dessas doenças; mas isso não ocorre exclusivamente pela via inflamatória. É possível envelhecer com menos inflamação e mais saúde ao manter um estilo de vida saudável, por exemplo — diz a médica. 

 

Para além da associação com doenças, o inflammaging pode levar a condições que afetam a qualidade de vida dos idosos, como perda de força muscular, perda de peso não intencional e sensação constante de exaustão. 

— Quando começamos a perceber esses sintomas, é sinal de que a inflamação crônica já desencadeou o que chamamos de Síndrome da Fragilidade. Ou seja, a inflamação já está bem mais avançada, o que geralmente ocorre na terceira idade. Mas o inflammaging, em seu estado puro, é silencioso — pondera Olsen.

 

Como identificar?

Saber se o organismo está "inflamado" é uma dúvida que tem se tornado cada vez mais frequente, mas o diagnóstico específico do envelhecimento inflamatório não é simples. O chefe do Serviço de Geriatria da Santa Casa reforça que não existe um exame capaz de confirmar essa condição.

 

Por isso, a avaliação considera a saúde global do indivíduo e envolve biomarcadores de inflamação, fatores metabólicos e os sinais clínicos apresentados. Exames laboratoriais como a proteína C reativa (PCR) e a velocidade de hemossedimentação (VHS) balizam a presença de inflamação no organismo, mas não necessariamente o inflammaging. 

— O que importa não é a inflamação pela inflamação, mas o risco global de o paciente ter uma doença no futuro. Para entender isso, olhamos se ele apresenta fatores como obesidade, açúcar elevado e alteração no colesterol. A inflamação que vai aparecer no exame é um fator, mas não deve ser usada isoladamente para o diagnóstico — enfatiza a endocrinologista.

 

Letícia reforça que o inflammaging existe e merece atenção. Entretanto, faz um alerta rigoroso contra o que chama de "marketing da inflamação", que "rotula pessoas saudáveis como inflamadas para vender suplementos e dietas restritivas":

— Não existe remédio ou suplemento capaz de "desinflamar" o organismo. Precisamos ter muito cuidado com qualquer produto que prometa isso. 

 

Como tratar?

Uma vez que não há uma "pílula mágica", a abordagem consiste em tratar doenças e condições que estejam associadas ao inflammaging. 

 

Se houver hipertensão, diabetes ou colesterol elevado, por exemplo, pode ser indicado o uso de medicamentos específicos para esses quadros — e a redução da inflamação é uma consequência esperada, mas não o objetivo final do tratamento.

 

Outro ponto fundamental é a adoção de um estilo de vida saudável, o que inclui a prática de atividades físicas e uma alimentação balanceada, com menos ultraprocessados e mais frutas e vegetais. 

 

Essa estratégia, conforme Olsen, pode ser adotada em qualquer idade para desacelerar o envelhecimento inflamatório, seja antes dos 60 anos, de forma preventiva, ou na terceira idade, para minimizar os possíveis efeitos negativos do inflammaging:

— Nunca é tarde para parar de fumar, começar uma atividade física ou se alimentar melhor. Mesmo aos 80, 90 ou 100 anos, fazer boas escolhas traz impactos reais para a saúde — diz.

 

Iniciativas que ajudam a combater o inflammaging:

 

  • Alimentação saudável e sem modismos

O foco é comer com equilíbrio e consumir comida de verdade: frutas, verduras, legumes, grãos, alimentos ricos em gorduras boas (azeite de oliva, castanhas) e proteínas. Conforme os médicos, a verdadeira dieta anti-inflamatória não exige o corte de glúten ou laticínios para quem não tem intolerância ou doença celíaca. 

 

  • Redução de ultraprocessados

Evitar o consumo de produtos ultraprocessados, açúcares refinados, embutidos e gorduras saturadas é fundamental para reduzir a inflamação e melhorar as condições de saúde.

 

  • Prática de exercícios físicos

Atividades aeróbicas e de força (como a musculação) fortalecem os músculos, reduzem a gordura corporal e estimulam a liberação de citocinas anti-inflamatórias.

 

 

  • Cuidado com a microbiota intestinal

O equilíbrio das bactérias que habitam o intestino influencia o sistema imunológico, que está intimamente ligado aos processos inflamatórios. Por isso, é importante preservar a flora intestinal a partir de uma alimentação variada e rica em fibras.

 

  • Sono reparador e controle do estresse

Dormir bem e manejar o estresse evitam a liberação continuada de hormônios que alimentam o estado inflamatório.

 

Fonte: Zero Hora/Saúde/Camila Bengo em 21/09/2026