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Educação no combate à violência contra as mulheres
Educação no combate à violência contra as mulheres

"COMBATE À VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES PRECISA PASSAR PELOS HOMENS": COMO O COMPORTAMENTO MASCULINO INFLUENCIA EM CRIMES DE GÊNERO

Especialistas apontam que equidade é um dos caminhos para superar relações desiguais de poder entre homens e mulheres. Em Caxias do Sul, prefeitura implementa projeto "masculinidade consciente nas escolas", e Justiça reeduca acusados de violência com sessões semanais

 

Até os primeiros dias de junho, o Rio Grande do Sul registrou 36 feminicídios em 2026, um índice 20% mais elevado na comparação com o mesmo período do ano passado. Somente na Serra, foram quatro assassinatos em razão de gênero, em Caxias do SulNova PrataSão Francisco de Paula e Muitos Capões.

 

De acordo com o Observatório Estadual da Segurança Pública do governo do Estado, o ano passado terminou com 80 casos — um crescimento de 10%. Em nível de país, a pesquisa Retrato dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que, em 2025, 1.568 mulheres tiveram suas vidas abreviadas por conta do gênero, uma ampliação de 4,7% na estatística em relação a 2024.

 

No RS, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) avalia que, na maioria das vezes, o feminicídio acontece dentro de casa, envolvendo relações íntimas. Nos relatórios das autoridades, outro ponto que costuma caracterizar o desfecho cruel é o histórico de violência doméstica.

 

Especialistas atribuem ao homem um papel central na superação da estrutura que envolve a violência de gênero, e são contundentes na defesa da construção de um comportamento masculino saudável desde a infância — aliada à reeducação de agressores — para atingir o respeito pleno à autonomia feminina.

 

A professora de Sociologia e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rochele Fellini Fachinetto, aponta que o caminho para esse objetivo passa pela equidade de gênero — e que ao lutar e alcançar seus direitos, as mulheres não sejam vistas como ameaça.

 

A docente explica que o fenômeno da violência de gênero é estrutural e organizado com base em relações desiguais de poder entre homens e mulheres. Na análise dela, as mulheres tendem a ser vistas como seres inferiores e objetos da posse masculina:

— Há sociedades em que existe uma maior desigualdade e por isso, muitas vezes, o recurso à violência é uma forma de restabelecer uma superioridade masculina.

 

Rochele pontua que, ao passo em que as mulheres e o feminismo ganharam terreno na conquista de direitos, acontece uma reação de grupos que entendem haver uma suposta fragilização da identidade masculina:

— O que nós estamos enfrentando é a desigualdade, o desrespeito, a misoginia. A equidade de gênero não significa a fragilidade masculinamas sim uma sociedade com mais direitos iguais.

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, em 2022 (levantamento mais recente), as mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens ao trabalho doméstico e ao cuidado. Na ótica da socióloga, as responsabilidades do lar, além de tradicionalmente recaírem sobre o feminino, são invisibilizadas.

— O problema do patriarcado, da misoginia e da violência está posto como uma estrutura. É necessária uma mudança cultural de comportamentos, em que as masculinidades também se atenham ao cuidado e às tarefas domésticas — reivindica, e complementa:

— Os direitos das mulheres estão sempre em xeque para que a superioridade masculina possa ser mantida.

 

A professora defende que a discussão sobre os direitos da mulher e a violência de gênero seja feita nas escolas em contraponto ao que por vezes toma conta dos lares e das redes sociais: um reforço das desigualdades e de atitudes misóginas.

— As crianças poderão construir, na escola, uma visão crítica, poderão entender por que a mãe delas trabalha fora, volta para casa e ainda faz a comida e lava a roupa. Isso precisa ser visto pelas novas gerações, sobretudo pelos meninos na transição da infância para a adolescência, fase em que passam a se apoiar em discursos — afirma Rochele.

 

O feminicídio é visualizado, conforme a docente, como o ponto máximo de violência, resultado de lesõesabusosameaças e importunações. Ela acrescenta que a percepção de que há mais mortes de mulheres hoje é causada, em parte, pela tipificação recente de crimes de gênero em lei e pela qualificação do levantamento de dados vinculados ao tema.

 

Conforme Rochele, que se baseia em relatórios divulgados a partir de 2016, as mulheres negras são as principais vítimas de feminicídio no Brasil. Também cita um incremento na brutalidade que acompanha as ocorrências — com vistas a produzir a desumanização da mulher e atingir sua rede de afetos — e alerta para taxa superior de incidência do crime em municípios pequenos.

— As mulheres convivem com a violência no seu cotidiano. Mesmo que não tenham um parceiro violento, elas podem ser vítimas na rua, num estacionamento, no supermercado, no transporte público. Esse contínuo de violência precisa ser entendidoe o feminicídio é o ponto máximo de uma trajetória de violência — destaca.

 

Controle emocional como chave

Professor e pesquisador em regulação emocional e educação socioemocional, o psicólogo Renato Caminha explica que os estereótipos são cultivados e atordoam o desenvolvimento humano desde a infância. Segundo ele, tradicionalmente os meninos são instruídos para compreender a raiva como uma demonstração de virilidade, enquanto as meninas são educadas para entender que o amor significa sacrifício e tolerância.

— O que acontece na maioria dos homens quando se sentem frustrados é a ativação da raiva, em vez da tristeza, porque homem "não demonstra fragilidade". Os homens entram numa relação na qual eles têm poder, ascendência e superioridade sobre o universo feminino — adverte. 

 

Caminha reforça, como a professora Rochele, que quando o homem se envolve em tarefas domésticas e de cuidado dos filhos, por exemplo, há benefícios mútuos. Baseado na neurociência, o psicólogo atenta que, nesses momentos, o cérebro masculino ativa hormônios ligados à socialização, cooperação e empatia.

 

Ao entrar em um relacionamento, a figura masculina precisa entender que a relação envolve adultos conscientes, funcionais e responsáveis:

— Quando entra um filho, a situação se torna ainda mais complexa, porque geralmente quem materna é a mãe, e o pai fica numa posição de não envolvimento nessa tarefa. Os homens têm que se implicar em um ato de responsabilidade, parentalidade é renúncia. Sem isso, acontece um grande adoecimento feminino.

 

Caminha prega que as novas gerações passem por uma desconstrução de comportamentos retrógrados por meio do letramento emocional, que é basicamente um processo de autoconsciência das próprias emoções:

— Estamos falando de fenômenos biológicos que estão dentro de nós, na nossa filogênese, no nosso DNA, mas que são sensíveis ao ambiente. Esses 'botões' se regulam para mais ou para menos com educação. A saída para tudo isso é educar as nossas crianças e, para aqueles que já estão desencaminhados, uma lei implacável.

 

A matriz do feminicídio é a masculinidade tóxica

Renato Caminha/Psicólogo

 

O psicólogo também faz críticas a movimentos em destaque na internet atualmente, como o cristão Legendários e o polêmico curso de masculinidade criado pelo ator Juliano Cazarré. Para ele, são iniciativas que incitam "a masculinidade mais primitiva de dominância do homem".

— Temos no Brasil um sistema patriarcal, machista e conservador muito forte, que se mantém sempre para supressão da autonomia feminina. A matriz do feminicídio é a masculinidade tóxica — enfatiza.

 

Conscientização nas escolas

A Coordenadoria da Mulher de Caxias e as Cipave (Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar) estão avançando na implementação do projeto Masculinidade consciente nas escolas, que busca incentivar atitudes baseadas em respeito, igualdade, não violência e cuidado na juventude. A iniciativa irá ao encontro dos estudantes do 6° ao 9° ano do Ensino Fundamental nas 82 instituições de ensino da rede municipal.

 

A atuação se dará por meio de rodas de conversa, oficinas temáticas, palestras, vídeos e debates, atividades reflexivas e materiais gráficos. Entre as atividades previstas pelo plano de trabalho estão testes de atitudes machistas e a escuta e compartilhamento de informações para estimular o diálogo sobre emoções e desconstruir estereótipos de gênero.

 

A titular da Coordenadoria da Mulher, Jeane Schulz, justifica que a proposta surge ao passo em que a masculinidade se constrói muitas vezes sob a influência do machismo e da repressão emocional. São comportamentos que alimentam a violência de gênero, o bullying e problemas de saúde mental.

 

Por isso, a escola se torna essencial, segundo a coordenadora, para a promoção de reflexões visando as próximas gerações de adultos:

— Temos que trabalhar a conscientização, principalmente voltada aos meninos, que em muitos casos trazem a violência de dentro de casa e passam para o primeiro relacionamento. Precisamos descontruir a questão do controle e da posse, promover a reflexão da masculinidade e incentivar atitudes baseadas no respeito.

 

Em abril, o projeto foi articulado com os 68 coordenadores pedagógicos das escolas, na Secretaria Municipal da Educação (Smed). Jeane adianta que, na sequência, as equipes vão introduzir a proposta em reuniões semanais com professores — multiplicando os difusores das informações — para, ainda neste anochegar de fato às salas de aula com encontros específicos. São momentos que, inclusive, podem desencadear denúncias dos próprios estudantes.

 

Inicialmente serão atendidas seis escolas municipais de ensino fundamental (EMEFs) de diferentes regiões da cidade: Professora Ester Justina Troian Benvenutti; Guerino Zugno; Sete de Setembro; Cidade Nova; Santo Antônio; e Erico Veríssimo.

— Percebemos cada vez mais que é uma situação cultural, temos que trabalhar não só com adolescentes. Se tivéssemos uma equipe maior, começaríamos com a educação infantil — comenta a coordenadora da Mulher.

 

Em paralelo, o órgão executa outros serviços, como o Centro de Referência da Mulher (CRM) - Rompendo Paradigmas, que acolhe vítimas de violência de gênero e doméstica. É a partir do CRM que são encaminhadas para abrigo mulheres em risco de morte e sem rede de apoio.

 

Reeducação aos adultos acusados de violência

Criada há quase 20 anos, a Lei Maria da Penha — marco histórico no combate à violência contra a mulher em termos de legislação — prevê, no capítulo das medidas protetivas de urgência (MPUs), o comparecimento de agressores a programas de recuperação e reeducação

 

Em Caxias do Sul, a Justiça aplica o Ghrav, que é o grupo reflexivo para homens acusados de violência. O programa promove, em oito encontros, discussões e dinâmicas sobre as formas de violência de gênero e o comportamento masculinoalém de proporcionar momentos de autorreflexão. A atuação acontece em duas modalidades: 

 

  • grupo fechado, composto por homens que foram presos em flagrante ou por descumprimento de medida ou após condenação criminal. Eles precisam cumprir todos os encontros obrigatoriamente
  • grupo aberto, destinado aos homens que acabaram de ser alvo de medida protetiva de urgência e têm de participar ao menos da primeira reunião, enquanto as outras sete são oferecidas por adesão.

 

Anteriormente denominado Hora (homens, orientação, reflexão, atendimento), o projeto foi reconfigurado há cerca de dois anos e relançado como Ghrav. Os dados do Juizado da Violência Doméstica da Comarca de Caxias indicam que, no ano passado, 165 homens concluíram as sessões. Em 2024, 131 chegaram ao fim do curso. Não são atendidos autores de feminicídio.

 

Quem coordena e executa as conversas são a psicóloga Nathalia Matos Pereira e a assistente social Lívia Seeling Segui. Cada grupo tem um limite de 15 participantes e, para dar conta da demanda, as servidoras do Judiciário têm apoio de três estagiários e dois voluntários de Psicologia, que passam por capacitação específica.

— A ideia é trabalhar os seis tipos de violência (física, psicológica, moral, patrimonial, vicária e sexual), mas também as masculinidades: falamos sobre como lidar com emoções e sentimentos. Estudos mostram que ao homem é permitido sentir raiva e, muitas vezes, eles lidam com isso através da violência. Trabalhamos também temas transversais da paternidade e a relação de poder estabelecida entre os gêneros — descreve Lívia.

 

Com caráter de acolhimento, escuta e desconstrução de pensamentos nocivos, os grupos reflexivos não têm um perfil predominante, segundo as coordenadoras. Participam homens de diferentes faixas etárias, classes sociais e cargos de trabalho. A frequência dos encontros é semanalcom duração de 1h30min cada.

— O combate à violência contra as mulheres precisa passar pelos homens. Porque não vamos ensinar a mulher a não sofrer violência, vamos ensinar o homem a não cometer violência. Na prisão, ele não vai aprender isso. Ao longo dos encontros do Ghrav eles mesmos identificam o que nem sabiam que é violência, para muitos é a primeira vez em que se perguntam sobre o que é ser homem — salienta a psicóloga Nathalia.

 

Os resultados das atividades de reeducação serão mensurados a partir da taxa de reincidência de ocorrências (novos boletins de ocorrência ou MPUs) verificada dois anos após a conclusão de participação no Ghrave. Em paralelo, acontecem avaliações subjetivas, dadas pelos próprios usuários durante os encontros. De acordo com as organizadoras, há relatos de homens que levam os ensinamentos para seu entorno social, que aderem à terapia e que demonstram evolução no entendimento do controle emocional.

 

O Juizado concilia, durante a semana, três dias à execução do Ghrav e outros dois dias para o trabalho de atendimento e acolhimento às mulheres que sofrem violência

 

Conforme o painel Violência contra a Mulher, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 710 medidas protetivas de urgência foram concedidas em Caxias até abril deste ano. Em todo o ano passado, foram expedidas 1.958 MPUs e, em 2024, 1.706, na Comarca da cidade.

 

🚨Como pedir ajuda

 

Brigada Militar – 190

  • Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.

Polícia Civil

  • Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
  • Em Caxias do Sul, a Delegacia da Mulher fica na Rua Dr. Montaury, 1387, 1º andar, no Centro. O atendimento da unidade foi ampliado em duas horas a partir do dia 1° de junho: 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 20h. O telefone é (54) 3220-9280 ou 197 (emergências).
  • Delegacia de Polícia Pronto Atendimento (DPPA) de Caxias pelo telefone (54) 3224-7572, funcionamento 24h.
  • As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.

 

Delegacia Online

  • É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.

 

Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180

  • Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.

 

Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556

  • Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).

 

Centros de Referência de Atendimento à Mulher

  • Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência. Em Caxias, a equipe atende pelo telefone (54) 98403-4144 e (54) 3218-6112 ou presencialmente, no prédio da prefeitura (Rua Alfredo Chaves, 1.333, bairro Exposição), de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h. 

 

Ministério Público do Rio Grande do Sul

  • O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
  • Neste espaço, é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link

 

Fonte: Zero Hora/Pioneiro/Luca Roth em 05/06/2026