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Sair Sozinha fortalece Autonomia e Autoestima
Sair Sozinha fortalece Autonomia e Autoestima

LIBERDADE: "POSSO ME REENCONTRAR COMIGO MESMA"; POR QUE SAIR SOZINHA FORTALECE AUTONOMIA E AUTOESTIMA

Dates solo podem ajudar mulheres de diferentes perfis a construir e consolidar suas identidades

 

Sentar sozinha em um restaurante, entrar desacompanhada em um bar ou comprar um único ingresso para o cinema ainda pode despertar olhares e julgamentos. Apesar do medo, muitas mulheres têm tentado transformar a própria companhia em prioridade

 

Na visão de quem entende e vive esse movimento, os dates solo (encontros sozinhas) favorecem o autoconhecimento e a independência.

 

Na psicologia, a solidão é definida como um sentimento de sofrimento que surge quando as pessoas não têm conexões sociais. Estar só, por outro lado, é a experiência de escolher passar tempo de qualidade consigo. Para a aposentada Cley Maria Miranda do Amaral, 61 anos, isso significa muito mais do que só sair desacompanhada:

— Eu vou ao cinema, ao teatro, a shows, ao parque, e até viajo sozinha. Na minha disponibilidade, com a minha programação. É um momento em que posso me reencontrar comigo mesma. Porque nem sempre estamos com vontade de sair com outras pessoas e, assim, posso observar as coisas com mais tranquilidade, fazer o que gosto, no meu ritmo.

 

Caçula de 12 irmãos, Cley aprendeu desde cedo a desenvolver a própria autonomia. Enquanto via os irmãos mais velhos construindo suas vidas e deixando a casa dos pais, foi entendendo que, apesar dos encontros familiares sempre cheios, cada um tinha um caminho.

 

A flexibilidade da rotina de aposentada, que ela aproveita desde pouco depois da pandemia de covid-19, deu espaço para retomar antigos planos e a nova fase fortaleceu esse senso de independência. Solteira e sem filhos, nos últimos anos passou a cultivar ainda mais o hábito de se levar para sair.

— A gente vai aprendendo que não pode deixar de fazer as coisas que quer em função da disponibilidade dos outros. Tenho que trabalhar em cima da minha disponibilidade, da minha vontade, dos meus recursos. Porque nem sempre as pessoas vão estar na mesma página e mesmo timing que a gente — complementa.

 

Identidade, autonomia e bem-estar

Para a psicóloga Gabryellen Fraga Des Essarts, sair sozinha deixou de ser visto apenas como alternativa diante da falta de companhia e passou a ser reconhecido como prática associada à autonomia, ao autoconhecimento e ao bem-estar emocional

 

Ela defende que momentos individuais de lazer consigo mesma também podem contribuir para a construção de uma relação mais saudável com a própria companhia.

— Esses momentos em que a mulher pode se propor a ser independente, fazer as próprias escolhas, se sentir livre e capaz de ir atrás dos seus sonhos e seus interesses, sem que nada disso esteja vinculado à necessidade de estar acompanhada de alguém (sejam amigos, familiares ou parceiros) ajuda na construção do processo subjetivo da feminilidade e da identidade pessoal. É muito benéfico para as mulheres — pontua a especialista.

 

O hábito também pode ajudar a romper com o costume de se anular em função da preferência dos outros. Escolher fazer algo de que se gosta — como visitar um museu, assistir a um espetáculo ou conhecer um novo lugar — mesmo sem companhia, permite explorar interesses pessoais e novas experiências sem depender da aprovação ou da disponibilidade de terceiros.

 

A jornalista Michelle Garcia, 25 anos, se leva para sair desde a adolescência e acredita que essa prática ajudou a formar sua personalidade. Apesar de entender a importância do coletivo e das atividades em grupo, a jovem defende que pensar em si como um ser individual é enriquecedor:

— Há coisas que a gente precisa descobrir sozinha para poder se entender no mundo. E eu vejo, nessas pequenas coisas, como construí meus gostos, minha bagagem cultural, e principalmente como eu lido com as coisas dentro da minha rotina e do estilo de vida que eu tenho.

 

Embora a ideia de aprender a gostar da própria companhia possa soar clichê, é importante para o desenvolvimento da autoestima. Gabryellen pontua que reservar momentos para si ajuda a compreender interesses, limites e valores pessoais

 

Esse conhecimento pode refletir na forma como as pessoas constroem e mantêm relações, sejam elas amorosas, familiares ou de amizade.

— Por sair sozinha, passo muito tempo conversando comigo mesma, pensando e revendo um monte de coisas. Penso na Cley do passado, que existia antes dessa loucura de trabalho e vou me reconectando comigo e aprendendo mais sobre mim. Isso me ensinou que eu sou capaz, que eu valorizo meu conhecimento, minha vida e a minha personalidade. E é algo que me faz respeitar as minhas vontades — confessa Cley. 

 

Sair sozinha pode ser assustador

É normal que essa ideia cause medo, afirma a psicóloga, já que o hábito exige um alto nível de exposição. Em ambientes onde a maioria das pessoas está acompanhada, pode surgir o receio de ser julgada, observada ou interpretada como alguém que não tem companhia. Isso acontece porque, socialmente, ainda existe uma ideia de que estar sozinho é sinal de fracasso ou rejeição, e não uma escolha.

 

Embora esse desconforto seja comum e tenha raízes em expectativas sociais, Gabryellen ressalta que preferir fazer atividades acompanhado não é, por si só, um problema:

— Ainda que a gente tenha avançado muito, o papel da mulher segue sendo uma construção social. E, nessas representações, dependendo da faixa etária e do contexto, essa mulher pode ter sido ensinada que não pode fazer as coisas sozinha. É difícil desconstruir isso. 

 

A psicóloga destaca que o impacto disso será no "quanto essa dificuldade prejudica a capacidade dela de fazer o que quer", de levar adiante seus planos e o quanto gera sofrimento emocional.

 

Algumas situações, como ir ao shopping, costumam parecer mais tranquilas, enquanto outras, como ir a uma festa, podem exigir mais coragem e adaptação. Para a advogada Eliana Alves Bicudo, 48, que ama sair sozinha e mantém esse hábito há anos, existem níveis diferentes de desconforto:

— A primeira vez que fui ao cinema sozinha foi porque levei um cano das amigas que marcaram comigo. Lembro que fiquei lá com medo, achando tudo muito estranho. Depois, acostumei e hoje é uma das programações que mais faço sozinha. Jantar sozinha também era estranho, porque normalmente sou a única pessoa sozinha do lugar. Mas agora nem me importo mais.

 

Falta de segurança

Além desse nervosismo, Cley, Michelle e Eliana também citaram o medo de sair na rua e sofrer um assalto ou algum tipo de violência por serem mulheres. Segundo a delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher do Rio Grande do Sul, esse receio é compartilhado por muitas brasileiras.

 


 

— Só quem é mulher sabe essa sensação e esse medo de sair de casa, de fazer coisas sozinha na rua. Mas temos que continuar explorando, continuar saindo sozinhas, se assim desejarmos, é um direito nosso. Os índices de violência contra a mulher seguem altos, então é importante que elas tomem alguns cuidados preventivos e estejam sempre atentas — defende.

 

Fonte: Zero Hora/Revista Donna/Yasmin Girardi em 18/07/2026